Uma tecnologia determina o conhecimento, na medida em que, a presença de uma técnica vai definir um tipo conhecimento ou cultura.
Se não houvesse técnicas, não haveria conhecimento, uma vez que estas estão implícitas na transmissão, conservação e armazenagem do conhecimento.
Segundo Pierre Lévy, a técnica , por si só não é nada. O que conta e contribui activamente para o conhecimento individual ou colectivo, é o tipo de utilização que dela se faz.
Desde sempre, o homem inventou técnicas, que à medida que se foram tornando mais complexas, possibilitaram que este aumentasse cada vez mais o seu conhecimento.
O uso das tecnologias permite que o "sujeito" possa construir algo, reflectir e aprender sobre diversas coisas, como sujeito activo, que ao construir o seu conhecimento, experimentando as suas hipóteses, vai alterando os seus planos.
Segundo a ecologia cognitiva, o conhecimento é um produto do homem, dos estudos semióticos, saberes, técnicas e tecnologias que suportam esses saberes, e nos remetem para o facto de nas sociedades, a presença de determinadas técnicas determinar o tipo de conhecimento e de cultura dessas sociedades.
O desenvolvimento e aperfeiçoamento de outras técnicas e de outras ciências (electrónica, comunicações, lógica, psicologia cognitiva, ecologia cognitiva, semiótica), possibilitou esta grande inovação, que, quanto a nós, tem suscitado fortes mudanças paradigmáticas e uma autêntica "revolução social" (a nível de hábitos, costumes, formas de estruturação social, de organização das empresas, de organização e estruturação do pensamento e do conhecimento): o aparecimento da informática, que por sua vez originou a revolução informática.
Aproveitando os interfaces dos pólos anteriores, o computador, mudou a própria comunicação, o modo de adquirir, armazenar e transmitir o conhecimento.
Voltou-se ao tempo da memória, embora com características de escrita, na medida em que se aplicam simultaneamente os interfaces da escrita (linguagem e sinais) e os da leitura ( índices, notas de rodapé, capítulos, paginação).
"Os computadores, não têm uma identidade estável. São redes de interfaces abertas a conexões novas e imprevisíveis, que podem transformar radicalmente a sua significação e utilização " (Ibidem: 129).
Ponte (1998:14) refere que "a evolução tecnológica dos computadores associada à progressiva integração dos seus circuitos e à utilização de software diversificadíssimo, conduziu a progressos notáveis nas suas capacidades e velocidade de processamento. Tal evolução, propiciou grandes transformações no relacionamento homem/ máquina" e serviu de base à múltipla capacidade que o computador tem de se adaptar a todo o tipo de situações.
O aparecimento da digitalização, com as inclusas técnicas de comunicação e de processamento da informação, possibilitou a ligação da música, cinema, telecomunicações, jornalismo, televisão, etc. A codificação digital é um princípio de interface que veio tornar o suporte da informação mais leve, móvel e flexível. Para além de tudo o mais, o digital é uma matéria pronta a ser transformada, aceitando todas as deformações e envolventes. O facto de, digitalizar a imagem, e de seguida ser possível compô-la, decompô-la, ordená-la, comentá-la e associar imagens animadas a hiperdocumentos multimedia veio determinar um novo modelo do "conhecimento".
Através da simulação ou catálogo do mundo abre-se todo um universo que podemos descobrir através de sínteses criadas, conjugando sons e imagens. Com todos esses mundos ao nosso dispor é já um dado adquirido que as TI de suporte informático adquiriram uma plasticidade comparável à escrita.
Pierre Lévy (ibidem:132) define, na rede digital, quatro pólos funcionais, que operam como interfaces e nos permitem entender como é que o conhecimento se armazena/ conserva, transmite/ difunde , produz/ acede ao saber.
A informática utiliza interfaces e auto-interfaces que permitem efectuar a interacção entre o utilizador humano e o dispositivo informático, realizando simultaneamente a codificação/ descodificação e permitindo visualizar as representações dos conhecimentos.
A imagem digital, aproveitada pela IA, tem enormes potencialidades, na medida em que permite criar sequências em movimento e efectuar rotações de objectos em espaços tridimensionais, acessório indispensável para a realização de simulações.
A psicologia cognitiva tem utilizado a metáfora do computador para entender como se processa e representa a informação no cérebro humano. Dias P. e al. (1993: 6) referem que " A representação do conhecimento no computador pode ser entendida como a correspondência entre o mundo exterior e um sistema simbólico interno que permite à máquina simular um processo de raciocínio". Assim sendo, existe a dicotomia entre as representações preposicionais e analógicas, em que a preposição constitui o formato de representação privilegiada para representar o conhecimento na memória, e a analogia é a correspondência directa entre o mundo representado e o representador.
A percepção permite a construção de símbolos mentais que representam o mundo e onde a ligação entre a representação do mundo e a representação interna se faz através da imagem mental.
Esta forma de representação chama-se hipertexto. A tecnologia hipertexto tem a significação de escrita/leitura não linear e corresponde à maneira de pensar e agir humana, baseada na associação de ideias. Através do suporte desta tecnologia, o documento, em vez de uma sequência rígida de pequenas unidades, passa a ter uma interligação entre os diversos elementos, permitindo a criação e exploração de combinações de informação verbal e analógica e possibilitando uma outra forma de ter acesso à informação e ao conhecimento, onde o utilizador experimenta um certo grau de autonomia , que origina a criação de ambientes de trabalho/ aprendizagem, enquanto navega na informação, o que suscita a criação de estratégias individuais de aprendizagem, onde ele é o principal responsável por este processo.
A utilização do hipertexto redimensiona, então, o desenho da aprendizagem, orientada para a concepção de ambientes de trabalho, onde o utilizador, ao mesmo tempo que adquire ou processa a aprendizagem, incrementa o desenvolvimento de estratégias cognitivas de controlo, identifica e selecciona conceitos, regras e princípios, que permitem a transferência e utilização do conhecimento em novas situações. Ou seja, o utilizador, tem a liberdade de: escolher a informação a ler, o ordem do processamento da leitura que pretende concretizar, apelando para a aprendizagem adaptativa e individualizada.
A tecnologia do hipertexto, associada à imagem e ao som, deu origem à hipermedia, ou multimedia interactiva. Segundo Pierre Lévy, a escrita do hipertexto ou hipermedia, está mais próxima da montagem de um espectáculo, do que da redacção clássica, em que havia a preocupação em escrever um texto coerente, linear e estático.
Os processos de criação e de composição do conhecimento, operam a partir de bancos de dados e/ ou bancos de conhecimento, estruturados para esse fim e que são constantemente aumentados com bancos de: filmes, sonoros, de hipertextos, de textos, de software, etc. que quanto mais crescem, mais necessitam de estruturação e de catalogação, de modo a existirem actualmente "hiperbancos de dados, estradas e vias transversais" de informação (Pierre Lévy, 1990: 139). A circulação desses dados/ interfaces pode ser feita através de suportes rígidos de leitura, laser e/ ou magnética, e pela rede RDIS. A utilização destes dados efectua-se segundo dois eixos: o da interactividade e o da selectividade. No primeiro existe a possibilidade de imaginar o aperfeiçoamento de micro interfaces pertencentes aos principais sentidos e modelos cognitivos humanos. No segundo podemos tirar partido da quantidade, imaginando dispositivos de selecção aperfeiçoados, onde se possa procurar, hierarquizar, organizar, compactar e paginar documentos, segundo o modelo de interface que mais nos convenha.
A existência de bancos de dados, pode pressupor, à priori, que a informática persegue o trabalho de acumulação e/ ou conservação do conhecimento efectuado pela escrita. Tal constatação seria errónea, na medida em que os "stocks" de dados dos informáticos, não procuram ter todos os conhecimentos verdadeiros sobre um tema, mas sim, o conjunto de saber utilizável operacional, necessário a um determinado tipo de cliente que necessita de obter, sobre uma determinada matéria um conhecimento mais rápido e mais fiável para melhor e mais rapidamente poder tomar uma decisão. É uma informação de caracter estratégico, deteriorável e transitória. Informação "on-line", susceptível de evoluir constantemente, a partir do núcleo que a produziu. Desta forma, constata-se que o conhecimento trazido pela informática é do tipo operacional e efectua-se em tempo real. É "a condensação do presente, sobre a operação em curso", aspecto em que se opõe aos estilos hermenêutico e teórico da escrita.
As figuras do tempo desta época são os segmentos /pontos que fazem as ligações do hipertexto. Citando mais uma vez Pierre Lévy temos que "por analogia com o tempo circular da oralidade primária e o tempo linear das sociedades históricas, poder-se-ia falar de implosão cronológica, e de um tempo pontual instaurado pelas redes informático/ mediáticas" (1990:147), em que a dinâmica cronológica se realizaria pela velocidade.
A distância do sujeito relativamente à memória social, em termos de informática, está em transformação permanente, visto que, perde as suas características tradicionais de memorização, de utilização dos saberes adquiridos e/ ou transmitidos, através do duplo processo da aceleração e flexibilidade da mudança técnica. O saber informatizado visa a velocidade, a pertinência da execução, a rapidez e a mudança, em vez da conservação fiel de uma sociedade. Afasta-se tanto da memória, que a verdade pode deixar de ser o interesse fundamental, em benefício de si próprio e da operacionalidade.
Nesta fase os critérios dominantes passam a ser a eficácia, a pertinência da execução, a rapidez, a mudança operatória e a novidade. Tal constatação deve-se ao facto de a memória ser objectivada ao ponto de a verdade deixar de ser o interesse fundamental, em primazia da operacionalidade e da velocidade, em que a teoria pode ser ultrapassada pela simulação, e a verdade pela eficiência.
O conhecimento e a velocidade evoluem a um ritmo cada vez mais rápido. As teorias dão lugar ao modelos, que em vez de assentaram num suporte inerte, giram num computador e são constantemente renovados, rectificados e melhorados, por meio de simulações. "O conhecimento por simulação é um dos novos géneros do saber produzidos pela ecologia cognitiva informatizada" (Ibidem:154), que permite alargar a nossa memória de trabalho biológica, fornecendo-nos simultaneamente o poder de antecipar os nossos actos, tirando partido de experiências anteriores e modificando o modelo mental do mundo que nos rodeia. Na imaginação assistida por computador os modelos são construídos para uso de um sujeito, num determinado tempo anuindo ao ritmo sociotécnico específico das redes informatizadas: o tempo real.
"O pretenso sujeito inteligente é apenas um dos microactores de uma ecologia cognitiva que o engloba e o limita".(Ibidem:173).
O avanço da ciência conduziu a estudos que procuram relacionar cada vez mais as tecnologias intelectuais de suporte informático, com o modo de funcionamento do cérebro humano.
Para isso, Pierre Lévy, salienta que foi necessário um conhecimento profundo da memória humana, que é formada por uma rede heterogénea de elementos (palavras, etc.), que transformam macro-estruturas de textos, de documentos multimedia, de programas informáticos de operações a coordenar ou de restrições a respeitar. "Os sistemas cognitivos humanos podem então transferir para o computador a tarefa de construir e actualizar as representações que eles teriam que elaborar com os fracos recursos da sua memória de trabalho (...). Os esquemas, mapas ou diagramas interactivos figuram entre os interfaces capitais das TI de suporte informático. Devido à natureza da memória humana, compreendemos e retemos muito melhor aquilo que está organizado segundo relações espaciais" ( Ibidem:51).
A utilização das TIC altera a percepção que temos de nós próprios, daqueles que nos rodeiam e das nossas relações com o mundo. O computador, é capaz de "pensar" ou simular os nossos processos cognitivos, provocando, em nós, por vezes uma certa "confusão" relativamente à noção do pensamento .
O pensamento abstracto ou capacidade de abstracção é o que permite alcançar o conhecimento, no entanto" aquilo a que se chama abstracção não passa frequentemente da representação de processos por meio de signos, que por seu turno serão objecto de diversas manipulações"(Ibidem:87).
Para este autor o conhecimento não é estático. Passa por diferentes fases ao longo dos três tempos de espírito. Produz-se de forma dinâmica quer no polo da oralidade primária, quer no polo informático/ mediático, enquanto que no da oralidade secundária a produção do conhecimento é estática.
O armazenamento do conhecimento no polo da oralidade primária processa-se na memória humana, enquanto que no da oralidade secundária se armazena através da imprensa. No polo informático/ mediático surgem os bancos de dados (memória colectiva).
Relativamente à conservação do conhecimento nos três tempos de espírito consideramos que no polo da oralidade primária, o conhecimento é versátil, ou seja está sujeito a modificações. No polo de oralidade secundária caracteriza-se pela rigidez, enquanto que no polo mediático/ informático, a plasticidade é o aspecto mais relevante.
A transmissão/ difusão do conhecimento no polo da oralidade primária efectivava-se de geração em geração (mito). No da oralidade secundária realizava-se através da perpetuação de um colectivo. No polo informático/ mediático a transmissão/ difusão optimiza-se através de um colectivo global.
A investigação empírica em ecologia cognitiva é indissociável da elaboração das tecnologias de inteligência e vice-versa. É necessário conhecer bem a forma como se processam na realidade as trocas de informações no seio dos grupos, enfim, as relações humanas.
autor salienta que "o pretenso sujeito inteligente é apenas um dos microactores de uma ecologia cognitiva"" em formação" que o engloba e o limita".
Por Maria de Balsamão Mendes
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